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Por Leandro Martins
Muitos têm me perguntado sobre os novos desafios para quem busca crédito rural ou tenta manter
operações em funcionamento de forma segura. Diante disso, acredito ser necessário trazer um ponto de
vista técnico que vá além da questão burocrática e ajude a compreender o que está por trás das exigências que o setor tem enfrentado.
Vivemos um momento em que os critérios de acesso ao crédito mudaram profundamente. Não se trata
apenas da escassez de recursos, mas da mudança na forma como o risco é avaliado. Mais do que garantias ou histórico de pagamento, há uma análise cada vez mais detalhada sobre como a propriedade é conduzida, gerida e documentada.
Não por acaso, tenho acompanhado com frequência operações de crédito travadas por ausência de
documentos que, até pouco tempo atrás, não eram exigidos: licenças ambientais atualizadas, documentos de segurança do trabalho, comprovação de regularidade fundiária ou mesmo a ausência de passivos com órgãos ambientais.
Esses documentos – ou a falta deles – interferem diretamente nos prazos e na viabilidade de uma operação. A relação entre o crédito rural e a organização da propriedade nunca foi tão clara. Um produtor que mantém seus cadastros ambientais atualizados, possui plano de segurança do trabalho em vigor, possui escrituração fundiária regularizada e apresenta relatórios de conformidade técnica, naturalmente está mais próximo de aprovar financiamentos e acessar linhas especiais.
É cada vez mais comum vermos instituições financeiras recusando operações não por falta de pagamento, mas por fragilidade documental. Em muitos casos, o processo sequer é iniciado.
Além disso, o uso de tecnologias de sensoriamento remoto e a integração de bases públicas têm
intensificado as fiscalizações. Embargos estão sendo emitidos com base em indícios – e não
necessariamente após vistoria presencial – e têm atingido propriedades produtivas, mesmo com
documentação parcial.
Esse processo não deve ser interpretado apenas como uma rigidez a mais, mas como um sinal de que a propriedade rural moderna precisa ser gerida como uma empresa – com seus riscos, controles e registros e que os olhos do mercado estão voltados para isso.
Em um cenário de instabilidade e mudanças frequentes nas diretrizes regulatórias, não é possível prever com precisão quais exigências serão cobradas nos próximos meses. Justamente por isso, manter a documentação em ordem reduz o risco de surpresas e garante maior margem de segurança, independentemente da direção que o ambiente político-econômico tomar.
A documentação técnica deixou de ser um “acervo burocrático” para se tornar uma ferramenta de proteção de patrimônio e de geração de valor.
Fazendas organizadas conseguem, por exemplo:
Integrar cadeias produtivas que exigem certificação ambiental, trabalhista ou de rastreabilidade.
Também é importante destacar que a ausência de um planejamento técnico integrado entre os aspectos
fundiário, ambiental, trabalhista e produtivo gera um efeito dominó. Um erro ou omissão em uma dessas
frentes compromete a imagem da propriedade perante financiadores, órgãos e parceiros comerciais.
Além disso, não é raro encontrar produtores que, ao longo dos anos, precisaram pagar mais de uma vez por documentos e projetos semelhantes, simplesmente por não haver integração entre áreas ou controle sobre o que foi feito e por quem. Empresas diferentes executam projetos isolados, sem visão do todo, e o resultado são documentos desconectados, sem valor estratégico e, muitas vezes, inúteis em auditorias ou financiamentos.
Isso gera retrabalho, custo duplicado e frustração – especialmente quando se percebe, tarde demais, que o que foi feito não resolve o problema atual. Não é exagero dizer que estamos passando de uma lógica produtiva para uma lógica de conformidade estratégica.
E essa transição exige que os produtores rurais, consultores e empresas do setor compreendam que a
governança documental e técnica da propriedade é, hoje, tão importante quanto a produtividade por hectare ou a cotação da commodity.
Defendo, portanto, que a documentação organizada – em todas as frentes da gestão rural – não seja mais
tratada como um item de “regularização”, mas como um ativo econômico concreto, que protege, viabiliza e valoriza.
Esse é o tipo de discussão que precisamos aprofundar com responsabilidade e visão de futuro.
Sobre o autor
Leandro Martins é engenheiro e consultor com mais de 15 anos de experiência no setor ambiental,
empresarial e de engenharia aplicada. Fundador da Produzza Engenharia e Negócios, atua diretamente na estruturação técnica de propriedades, gestão estratégica e viabilidade de projetos no campo e na cidade.
Com forte atuação na interface entre regularização ambiental, planejamento produtivo e acesso a crédito,
Leandro se dedica a orientar produtores, empresários e investidores a tomarem decisões seguras,
sustentáveis e financeiramente vantajosas.
Ao longo de sua trajetória, tem participado de iniciativas que unem tecnologia, gestão e legalidade como
pilares para o desenvolvimento consciente e competitivo. Destaca-se também por sua atuação em projetos estratégicos de interesse público, contribuindo com soluções técnicas relevantes para o desenvolvimento de
políticas e ações estruturantes em diversos estados do país.
